O lado oculto da Mesopotâmia: os exorcismos praticados pelos acádios

O lado oculto da Mesopotâmia: os exorcismos praticados pelos acádios. Ilustração: Condutta
O lado oculto da Mesopotâmia: os exorcismos praticados pelos acádios. Ilustração: Condutta

Muito antes de o exorcismo virar tema de filmes e lendas modernas, os povos da antiga Mesopotâmia já registravam rituais para afastar forças malignas.

Por Aelius Varro

Entre os acádios, esse tipo de prática fazia parte de uma tradição religiosa e terapêutica bastante organizada, preservada em tabuletas cuneiformes que descrevem encantamentos, purificações e cerimônias contra males invisíveis.

Mas há um detalhe importante: para os acádios, “exorcismo” não significava apenas expulsar um espírito de uma pessoa, como no imaginário atual. O objetivo podia incluir afastar demônios, neutralizar feitiçaria, remover maldições, combater doenças e até restaurar o equilíbrio entre o doente e o mundo divino. O responsável por isso era o āšipu, uma espécie de exorcista-erudito que atuava com rituais de purificação, fórmulas faladas e objetos de proteção.

Um dos exemplos mais impressionantes dessa tradição é o Maqlû, um grande ritual anti-feitiçaria da Babilônia em língua acadiana. Segundo os estudos atuais, a cerimônia se estendia por uma noite inteira e incluía a recitação de quase uma centena de encantamentos. Em certos momentos, figuras simbólicas dos supostos feiticeiros eram destruídas pelo fogo, num gesto ritual que buscava devolver o mal ao seu autor e libertar a vítima.

Outro elemento fascinante eram os amuletos e placas apotropaicas usados como defesa espiritual. Entre os mais conhecidos estão os amuletos ligados a Lamaštu, uma entidade temida por atacar grávidas, mães e recém-nascidos. O Metropolitan Museum destaca que essas peças traziam inscrições em acadiano e invocações divinas para exorcizar a ameaça, enquanto o British Museum descreve uma placa de Lamaštu como uma “tábua mágica para o doente”.

Esses objetos mostram que o exorcismo acadiano não dependia apenas de palavras. Havia toda uma tecnologia ritual envolvendo imagens, pedras, inscrições, incenso, oferendas e gestos cuidadosamente prescritos. Em alguns casos, o ritual era realizado na casa do paciente; em outros, em locais afastados ou próximos à água, dependendo da divindade invocada e do tipo de mal que se buscava eliminar.

O que os textos antigos revelam é que os acádios levavam muito a sério a ideia de que o mal podia agir no corpo, na casa e no destino das pessoas.

Seus exorcismos eram, ao mesmo tempo, religião, medicina e proteção cotidiana. E talvez seja justamente isso que torna essas tabuletas tão intrigantes até hoje: elas mostram um mundo em que a cura podia depender tanto de um ritual bem executado quanto da fé no poder das palavras sagradas.

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