
Associada ao mar primordial, às serpentes e ao nascimento do cosmos, Tiamat atravessou milênios como uma das figuras mais enigmáticas da mitologia babilônica — muito antes das teorias modernas sobre “reptilianos”.
Por Aelius Varro
Poucas figuras da antiguidade carregam uma aura tão poderosa e enigmática quanto Tiamat. Na mitologia mesopotâmica, ela não era apenas uma divindade: era a própria força primordial do caos, ligada ao mar salgado, à origem dos deuses e ao nascimento do universo.
Na tradição babilônica, Tiamat surge ao lado de Apsu, entidade associada às águas doces subterrâneas. Juntos, os dois representam o estado primordial do mundo, antes da ordem, antes da civilização e antes mesmo da separação entre céu e terra. Dessa união nascem as primeiras gerações divinas, dando início a uma das narrativas mais fascinantes do mundo antigo.
É no Enuma Elish, o épico babilônico da criação, que Tiamat ganha seu papel mais conhecido. O texto descreve o conflito entre os deuses antigos e os mais jovens, em uma disputa que cresce até se transformar em guerra cósmica. Nesse cenário, Tiamat deixa de ser apenas a matriz primordial e passa a encarnar a grande força oposta à nova ordem do universo.
Na parte mais dramática do mito, ela cria criaturas monstruosas para enfrentar os deuses mais jovens, enquanto Marduk surge como o guerreiro destinado a derrotá-la. A vitória de Marduk não representa apenas o triunfo de um deus sobre outro, mas a transformação do caos em cosmos. Em versões resumidas da tradição, o corpo de Tiamat é usado para formar a estrutura do mundo, reforçando a ideia de que a própria criação nasce da destruição da força primordial.
Mas afinal, como Tiamat era vista? A resposta permanece envolta em incerteza. Diferentes estudos e interpretações a associam à água, à serpente, ao dragão e a formas híbridas. Em algumas leituras, ela aparece como uma entidade monstruosa e marinha; em outras, como uma presença dracônica ligada às potências mais antigas da criação. Sua imagem exata nunca foi totalmente fixa, o que só aumenta o fascínio em torno de sua figura.
Ao longo do tempo, Tiamat acabou sendo puxada para releituras modernas que tentam conectá-la a ideias como seres reptilianos e conspirações contemporâneas. Nos textos antigos, Tiamat não era uma “reptiliana” no sentido atual da palavra, e sim uma entidade mítica e cósmica, ligada às águas primordiais, ao caos e à própria origem do universo.
Mais do que uma personagem de lenda, Tiamat continua sendo um dos maiores símbolos do imaginário mesopotâmico.
Ela representa o medo do caos, o mistério das origens e a ideia de que toda ordem nasce de uma ruptura. Talvez por isso sua história continue despertando curiosidade até hoje, entre arqueólogos, estudiosos da religião e leitores fascinados pelos grandes mistérios do passado.
